FOCO NARRATIVO

Fala, galera!

Já ouvimos falar por aqui das tipologias textuais (narração, descrição e dissertação) e vimos suas características básicas. Hoje, vamos tratar especificamente de um importante elemento na composição de um texto narrativo: o narrador.

Mas, antes, vamos fazer uma breve revisão:

O que é narrar?

Ao contarmos uma história, utilizamos alguns elementos para que ela faça sentido. Apresentamos personagens, localizamos espacial e cronologicamente o acontecimento, gerando, assim, um encadeamento de ações. São os chamados elementos da narrativa:

  • NARRADOR (quem conta)
  • PERSONAGENS (quem participa)
  • ESPAÇO/LUGAR (onde acontece)
  • TEMPO (quando acontece)
  • ENREDO (O quê, por que, como tudo acontece)

Narrar significa relatar fatos, acontecimentos; é contar uma história.

Agora, vamos analisar o papel e as peculiaridades de um elemento fundamental para a construção de uma narrativa – o narrador.

O NARRADOR

É aquele que conta a história, que relata as ações. É importante destacar que o narrador não deve ser confundido com o autor ou escritor de um texto. O narrador pode ser, por exemplo, um personagem; ele atua e é um elemento que integra a narrativa; é um “ser literário”, ou seja, ele pertence à história que está sendo narrada. O autor habita o mundo real. Observem o trecho a seguir do livro “O Ateneu”, de Raul Pompeia:

“Vais encontrar o mundo, disse-me meu pai, à porta do Ateneu. Coragem para a luta.” Bastante experimentei depois a verdade deste aviso, que me despia, num gesto, das ilusões de criança educada exoticamente na estufa de carinho que é o regime do amor doméstico, diferente do que se encontra fora, tão diferente, que parece o poema dos cuidados maternos um artifício sentimental, com a vantagem única de fazer mais sensível a criatura à impressão rude do primeiro ensinamento, têmpera brusca da vitalidade na influência de um novo clima rigoroso.”

Reparem a diferença: a narrativa é conduzida pelo narrador e personagem “Sérgio”, que narra, em primeira pessoa, suas experiências como aluno do colégio “Ateneu”. O autor do texto é Raul Pompeia.

SE LIGA!

FOCO NARRATIVO: é a perspectiva através da qual uma história é contada. Pode ser em primeira ou em terceira pessoa.

O narrador em primeira pessoa é chamado narrador-personagem, pois, além de narrar, também faz parte da história. Já o narrador em terceira é o chamado narrador-onisciente ou narrador-observador, que normalmente sabe tudo o que acontece, inclusive, os pensamentos e as emoções dos personagens, não se envolvendo diretamente nos fatos narrados.

Comparemos os trechos a seguir:

Texto I:

“Uma noite destas, vindo da cidade para o Engenho Novo, encontrei num trem da Central um rapaz aqui do bairro, que eu conheço de vista e de chapéu. Cumprimentou-me, sentou-se ao pé de mim, falou da lua e dos ministros, e acabou recitando-me versos. A viagem era curta, e os versos pode ser que não fossem inteiramente maus. Sucedeu, porém, que, como eu estava cansado, fechei os olhos três ou quatro vezes; tanto bastou para que ele interrompesse a leitura e metesse os versos no bolso.”

                                                                     (Machado de Assis, Dom Casmurro)

Texto II:

“Que abismo que há entre o espírito e o coração! O espírito do ex-professor, vexado daquele pensamento, arrepiou caminho, buscou outro assunto, uma canoa que ia passando; o coração, porém, deixou-se estar a bater de alegria. Que lhe importa a canoa nem o canoeiro, que os olhos de Rubião acompanhavam, arregalados? Ele, coração, vai dizendo que, uma vez que mana Piedade tinha de morrer, foi bom que não casasse; podia vir um filho ou uma filha... - bonita canoa! - Antes assim! - Como obedece bem aos remos do homem!

- O certo é que estão no céu!”

(ASSIS, Machado de. Quincas Borba. Rio de Janeiro, RJ: Civilização Brasileira S.A., 1975)

 

Notem que, apesar de ambos os trechos serem de autoria do Machado de Assis, a diferença está exatamente no foco narrativo de cada um. O texto I demonstra um exemplo de narrativa em primeira pessoa, que, consequentemente, possui uma subjetividade maior. Já o texto II, narrado em terceira pessoa, é transmitido com uma certa objetividade, pois o narrador não está diretamente envolvido com os fatos. Ele está “de fora”, observando.

Assim:

Texto I: narrador-personagem

Texto II: narrador-observador

 

CAIU NO ENEM

A partida 

Acordei pela madrugada. A princípio com tranquilidade, e logo com obstinação, quis novamente dormir. Inútil, o sono esgotara-se. Com precaução, acendi um fósforo: passava das três. Restava-me, portanto, menos de duas horas, pois o trem chegaria às cinco. Veio-me então o desejo de não passar mais nem uma hora naquela casa. Partir, sem dizer nada, deixar quanto antes minhas cadeias de disciplina e de amor.

Com receio de fazer barulho, dirigi-me à cozinha, lavei o rosto, os dentes, penteei-me e, voltando ao meu quarto, vesti-me. Calcei os sapatos, sentei-me um instante à beira da cama. Minha avó continuava dormindo. Deveria fugir ou falar com ela? Ora, algumas palavras…Que me custava acordá-la, dizer-lhe adeus?

LINS, O. A partida. Melhores contos. Seleção e prefácio de

Sandra Nitrini. São Paulo: Global, 2003.

 

No texto, o personagem narrador, na iminência da partida, descreve a sua hesitação em separar-se da avó. Esse sentimento contraditório fica claramente expresso no trecho:

a) “A princípio com tranquilidade, e logo com obstinação, quis novamente dormir”

b) “Restava-me, portanto, menos de duas horas, pois o trem chegaria às cinco”

c) “Calcei os sapatos, sentei-me um instante à beira da cama”

d) “Partir, sem dizer nada, deixar quanto antes minhas cadeias de disciplina e amor”

e) “Deveria fugir ou falar com ela? Ora, algumas palavras…”

 

 

Comentários:

A alternativa que melhor demonstra essa hesitação, ou seja, uma dúvida é a letra E quando se afirma “Deveria fugir ou falar com ela?”. Esse questionamento é o momento em que o personagem narrador demonstra indecisão diante da tomada da decisão.

 

 

Bom, pessoal, por hoje, fico por aqui. Até nosso próximo encontro!

Não deixem de comentar no caso dúvidas (ou elogios, claro!)Laughing



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