OS TIPOS DE INTERTEXTUALIDADE – parte 1

Fala, galerinha!

No último post, vimos que intertextualidade consiste, basicamente, na relação entre textos, de mesma natureza ou não. Hoje, vamos começar a entender que esse diálogo pode ocorrer de várias formas.

Para facilitar nossos estudos, na aula de hoje, vamos ter por base um dos textos mais famosos e revisitados da Literatura Brasileira: a “CANÇÃO DO EXÍLIO”, do poeta romântico Gonçalves Dias. Nela, nota-se claramente uma visão ufanista e saudosista da terra natal. Observem:

Canção do exílio

Gonçalves Dias

Minha terra tem palmeiras,

Onde canta o Sabiá;

As aves, que aqui gorjeiam,

Não gorjeiam como lá.


Nosso céu tem mais estrelas,

Nossas várzeas têm mais flores,

Nossos bosques têm mais vida,

Nossa vida mais amores.

 

Em cismar, sozinho, à noite,

Mais prazer eu encontro lá;

Minha terra tem palmeiras,

Onde canta o Sabiá.

 

Minha terra tem primores,

Que tais não encontro eu cá;

Em cismar – sozinho, à noite–

Mais prazer eu encontro lá;

Minha terra tem palmeiras,

Onde canta o Sabiá.

 

Não permita Deus que eu morra,

Sem que eu volte para lá;

Sem que desfrute os primores

Que não encontro por cá;

Sem qu'inda aviste as palmeiras,

Onde canta o Sabiá. 

 

TIPOS DE INTERTEXTUALIDADE

  • PARÁFRASE

O vocábulo “paráfrase” vem do grego “para-phrasis”, que significa a repetição de uma sentença. Esse tipo de relação intertextual consiste em reproduzir um texto ou parte dele explicitamente, com outras palavras, sem que a ideia original seja alterada. Vejam o exemplo a seguir, do poeta Carlos Drummond de Andrade:

 

Nova Canção do Exílio

Carlos Drummond de Andrade

Um sabiá

na palmeira, longe.

Estas aves cantam

um outro canto.

 

O céu cintila

sobre flores úmidas.

Vozes na mata,

e o maior amor.

 

Só, na noite,

seria feliz:

um sabiá,

na palmeira, longe.

 

Onde é tudo belo

e fantástico,

só, na noite,

seria feliz.

(Um sabiá,

na palmeira, longe.)

 

Ainda um grito de vida e

voltar

para onde é tudo belo

e fantástico:

a palmeira, o sabiá,

o longe.

 

Notem como há uma semelhança com o texto inicial “Canção do exílio”. O texto de Carlos Drummond de Andrade, intitulado como a “Nova canção do exílio”, retoma a ideia presente no texto de Gonçalves Dias, arrumando-a com outras palavras, porém, sem alterar o sentido original. Dessa forma, podemos afirmar que “Nova canção do exílio” é uma paráfrase do texto “Canção do exílio”.

 

  • PARÓDIA

No caso da paródia, o texto original é retomado, de forma que seu sentido passa a ser alterado. Normalmente, a paródia apresenta um tom crítico, muitas vezes, marcado por ironia. Tendo como texto-base – a “Canção do exílio”, de Gonçalves Dias, analisemos o texto a seguir, do poeta modernista Murilo Mendes:

Canção do exílio

Murilo Mendes

Minha terra tem macieiras da Califórnia

onde cantam  gaturamos de Veneza.

Os poetas da minha terra

são pretos que vivem em torres de ametista,

os sargentos do exército são monistas, cubistas,

os filósofos são polacos vendendo a prestações.

A gente não pode dormir

com os oradores e os pernilongos.

Os sururus em família têm por testemunha a Gioconda.

Eu morro sufocado

em terra estrangeira.

Nossas flores são mais bonitas

nossas frutas mais gostosas

mas custam cem mil réis a dúzia.

 

Ai quem me dera chupar uma carambola de verdade

e ouvir um sabiá com certidão de idade!

 

Reparem como a paródia de Murilo Mendes satiriza o texto original de Gonçalves Dias. A intenção não é mais a de exaltação da pátria; o sentido original foi alterado. Dessa forma, podemos dizer que a paródia é a intertextualidade das diferenças.

 

  • EPÍGRAFE

O termo “epígrafe” vem do grego “epi = posição superior”; “graphé = escrita”. Esse tipo de intertextualidade ocorre quando um autor recorre a algum trecho de um texto já existente, para introduzir o seu texto. É um trecho introdutório para outro que venha a ser produzido. A famosa “Canção do exílio” possui uma epígrafe, com versos de um escritor alemão – Wolfgang Goethe:

 

                                   Kennst du das Land, wo die Citronen blühen,

                                   Im dunkeln die Gold-Orangen glühen,

                                   Kennst du es wohl? — Dahin, dahin!

                                   Möcht ich... ziehn.

                                               Goethe

Canção do exílio

Gonçalves Dias

 

Minha terra tem palmeiras,

Onde canta o Sabiá;

As aves, que aqui gorjeiam,

Não gorjeiam como lá.

(...)

 

Tradução da epígrafe feita pelo poeta Manuel Bandeira:                            

 

[Conheces o país onde florescem as laranjeiras?

Ardem na escura fronde os frutos de ouro...

Conhecê-lo? Para lá, para lá quisera eu ir!]

                   Goethe

 

Notem como há uma relação temática entre a epígrafe e o texto de Gonçalves Dias. 

 

  • CITAÇÃO

A citação acontece quando há uma transcrição de um texto ao longo de outro, marcada normalmente pelo uso de aspas. Vejam, na tirinha a seguir, um exemplo de citação:

(www.google.com)


CAIU NO ENEM

(ENEM 2009)

TEXTO A 

Canção do exílio

Minha terra tem palmeiras,

Onde canta o Sabiá;

As aves, que aqui gorjeiam,

Não gorjeiam como lá.

 

Nosso céu tem mais estrelas,

Nossas várzeas tem mais flores,

Nossos bosques tem mais vida,

Nossa vida mais amores.

[...]

 

Minha terra tem primores,

Que tais não encontro eu cá;

Em cismar - sozinho, a noite -

Mais prazer eu encontro la;

Minha terra tem palmeiras

Onde canta o Sabiá.

 

Não permita Deus que eu morra,

Sem que eu volte para lá;

Sem que desfrute os primores

Que não encontro por cá;

Sem qu'inda aviste as palmeiras

Onde canta o Sabiá.

DIAS, G. Poesia e prosa completas. Rio de Janeiro: Aguilar, 1998.

TEXTO B

Canto de regresso à Pátria

Minha terra tem palmares

Onde gorjeia o mar

Os passarinhos daqui

Não cantam como os de lá

 

Minha terra tem mais rosas

E quase tem mais amores

Minha terra tem mais ouro

Minha terra tem mais terra

 

Ouro terra amor e rosas

Eu quero tudo de lá

Não permita

Deus que eu morra

Sem que volte para lá

 

Não permita Deus que eu morra

Sem que volte pra São Paulo

Sem que eu veja a rua 15

E o progresso de São Paulo

ANDRADE, O. Cademos de poesia do aluno Oswald. São Paulo: Cfrculo do Livro. s/d.

Os textos A e B, escritos em contextos históricos e culturais diversos, enfocam o mesmo motivo poético: a paisagem brasileira entrevista a distância. Analisando-os, conclui-se que:

a) o ufanismo, atitude de quem se orgulha excessivamente do país em que nasceu, e o tom de que se revestem os dois textos.

b) a exaltação da natureza é a principal característica do texto B, que valoriza a paisagem tropical realçada no texto A.

c) o texto B aborda o tema da nação, como o texto A, mas sem perder a visão crítica da realidade brasileira.

d) o texto B, em oposição ao texto A, revela distanciamento geográfico do poeta em relação à pátria.

e) ambos os textos apresentam ironicamente a paisagem brasileira.


Comentário: Apesar da abordagem de um mesmo tema, o texto B revisita de forma crítica o texto A, estabelecendo-se uma relação intertextual, no caso, uma paródia. Dessa forma, a alternativa que melhor se adequa à resposta da questão acima é a letra “C”.

 

Na próxima aula, veremos os últimos tipos de intertextualidade. Por hoje é só, pessoal! Até a próxima!

 

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