Paralelismo - parte 02

Fala, galera!

No post anterior, começamos a entender a importância do paralelismo para a construção textual. Vimos que esse recurso, quando bem utilizado, gera coesão, favorecendo a progressão textual.

Hoje, veremos que existem diferentes tipos de paralelismo e estudaremos a importância de saber utilizá-los.

PARALELISMO SINTÁTICO OU GRAMATICAL

É aquele em que se nota uma correlação sintática numa estrutura frasal a partir de termos ou orações semelhantes morfossintaticamente.

Veja os exemplos a seguir:

Exemplo 1:

O condenado não só [roubou], mas também [é sequestrador].

Corrigindo, temos:

Ela não só roubou, mas também sequestrou.

Reparem que os termos “não só...mas também” estabelecem entre as orações coordenadas uma relação de equivalência sintática. Dessa forma, é preciso que as orações apresentem a mesma estrutura gramatical. 

Exemplo 2:

O cidadão precisa [de educação], [respeito] e [solidariedade].

Corrigindo, temos:

O cidadão precisa [de educação], [de respeito] e [de solidariedade]. (os três complementos verbais devem vir preposicionados - encadeamento de funções sintáticas)

Exemplo 3:

[Gosto] e [compro] livros.

Nesse caso, temos um problema na construção. O verbo “gostar” é transitivo indireto, enquanto o verbo “comprar” é transitivo direto. A frase mostra-se incompleta sintaticamente, uma vez que só há um complemento verbal (“livros”).

Corrigindo, temos:

Gosto [de livros] e [os] compro.

            OI             OD

Exemplo 4:

Quero [sua ajuda] e [que você venha].

Nesse caso, o paralelismo foi quebrado, uma vez que os complementos do verbo “querer” têm “pesos sintáticos” diferentes: “sua ajuda” é um objeto direto “simples” e “que você venha” é um objeto direto oracional. Repare que os objetos estão ligados pelo conectivo “e”, devendo, portanto, haver uma equivalência entre eles.

Corrigindo, temos:

Quero [sua ajuda] e [sua vinda].

ou

Quero [que você me ajude] e [que você venha].


PARALELISMO SEMÂNTICO

É aquele em que se observa uma correlação de sentido entre as estruturas.

Observem os exemplos a seguir:

“Trocava [de namorada] como trocava [de blusa]”.

“Marcela amou-me durante [quinze meses] e [onze contos de réis]”

                                                          (Machado de Assis – Memórias Póstumas de Brás Cubas)

Notem que, apesar de haver paralelismo gramatical ou sintático nas frases, não há uma correlação semântica.

No primeiro caso trocar “de namorada” não equivale a trocar “de blusa”; no segundo, amar “durante quinze meses” (tempo) não corresponde a amar “durante onze contos de réis”. São relações de sentido diferentes. Dessa forma, podemos dizer que houve uma “quebra” do paralelismo semântico, pois é feita uma aproximação entre elementos de “carga significativa” diferente. Entretanto, isso foi intencional e não deve ser visto como uma falha de construção.


SE LIGA!

Na maioria das vezes, esse tipo de construção é proposital para trazer a um trecho determinado efeito de sentido a partir da ironia ou do humor, como nos exemplos acima.

 

PARALELISMO RÍTMICO

O paralelismo rítmico é um recurso estilístico de grande efeito, do qual alguns autores se servem com o propósito de dar maior expressividade ao pensamento.

Vejam os exemplos a seguir, retirados do livro “Comunicação em prosa moderna”, de Othon Garcia:

“Se os olhos vêem com amor, o corvo é branco; se com ódio, o cisne é negro; se com amor, o demônio é formoso; se com ódio, o anjo é feio; se com amor, o pigmeu é gigante”.

(“Sermão da quinta quarta-feira”, apud M. Gonçalves Viana, Sermões e lugares seletos, p. 214)

“Nenhum doutor as observou com maior escrúpulo, nem as esquadrinhou com maior estudo, nem as entendeu com maior propriedade, nem as proferiu com mais verdade, nem as explicou com maior clareza, nem as recapacitou com mais facilidade, nem as propugnou com maior valentia, nem as pregou e semeou com maior abundância”.

                                                                                                                                                                                                                        (M.Bernardes)

Reparem as repetições intencionais, enfáticas presentes nas construções acima, caracterizando um paralelismo rítmico.

Bem, pessoal, finalizamos aqui esse assunto. Tenham muita atenção quando forem escrever. Respeitar as regras de paralelismo e entender esse recurso nos campos semânticos e estilísticos fazem de você um candidato diferenciado.

 

TESTE SEUS CONHECIMENTOS:

(UERJ)

AS SEM-RAZÕES DO AMOR

 

Eu te amo porque te amo.

Não precisas ser amante,

e nem sempre sabes sê-lo.

Eu te amo porque te amo.

Amor é estado de graça

e com amor não se paga.

 

Amor é dado de graça,

é semeado no vento,

na cachoeira, no eclipse.

Amor foge a dicionários

e a regulamentos vários.

 

Eu te amo porque não amo

bastante ou demais a mim.

Porque amor não se troca,

não se conjuga nem se ama.

Porque amor é amor a nada,

feliz e forte em si mesmo.

 

Amor é primo da morte,

e da morte vencedor,

por mais que o matem (e matam)

a cada instante de amor.

(ANDRADE, Carlos Drummond de."Corpo". Rio de Janeiro: Record, 2002.)

 

Na terceira estrofe do poema, verifica-se um movimento de progressão textual que reitera as razões para o amor.

Essa progressão está caracterizada pela repetição do seguinte procedimento linguístico:

a) construção frasal em ordem indireta

b) estrutura sintática em paralelismo

c) pontuação com efeito retórico

d) rima como recurso fonológico

 

Comentário:

Reparem que o próprio enunciado da questão dá dicas sobre a resposta. A expressão “progressão textual” e a palavra “repetição” induzem a pensarmos exatamente no paralelismo presente no poema. Ao longo do texto, enumeram-se, por meio de estruturas equivalentes sintaticamente, as razões para o amor. Logo, como se vê, o gabarito da questão é a alternativa “B”.

Qualquer dúvida, é só postar aqui!

Até nosso próximo encontro!Wink



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